Artigos Na Imprensa

Conteúdos publicados in Expresso, 5 de Novembro de 2011.

 

À MESA COM JOSÉ QUITÉRIO, EXPRESSO

 
Com propostas variadas, cozinha nossa, franca e farta, o Nacional tem tudo para agradar. Se a divisa atual proclama Coimbra como a cidade do conhecimento, já no século XVI o que até ao XVIII foi o principal e mais nobre arruamento citadino se chamava Rua da Sofia, isto é, da sabedoria – certamente pelo número de colégios conventuais que abordavam, criados após a fixação definitiva da Universidade na urbe coimbrã (1537). A partir do Largo de Sansão (oficialmente de 8 de Maio) sucedem-se os abandonados edifícios colegiais e respetivos templos das diferentes ordens religiosas, como o Colégio do Carmo (1541), o Colégio de São Bernardo ou do Espírito Santo (1570), o Colégio da Graça (1548), o Colégio de São Pedro (1540), e mesmo o Palácio da Justiça, no limite da rua, resultou duma profunda remodelação do antigo Colégio de São Tomás.
 
Com tanta evocada sabedoria e escolaridade monástica, já se comia qualquer coisinha. E frente ao citado Colégio de Nossa Senhora da Graça, vire-se à esquerda para a Rua João de Ruão. A primeira perpendicular à direita é a Rua Rosa Falcão, a segunda a Rua Mário Pais: esta a que nos interessa, particularmente o seu nº 12. Claro está que este local da Baixa conimbricense, por assim dizer entre o Arnado e o Terreiro da Erva, também se atinge vindo do outro lado, a partir da Avenida Fernão de Magalhães.
 
Temos então no 1º andar do dito nº 12 o Restaurante nacional. Em décadas já vetustas foi aqui o Nacional Bilharista, só com mesas de bilhar, nobre jogo então na sua época áurea, para a qual não deixou de contribuir o prestígio do grande Alfredo Ferraz (1901-1960), campeão do mundo em partida livre. O restaurante foi criado em 1977, por iniciativa de Carlos Manuel e Fernando Viseu, dois irmãos então jovens. Depois das últimas obras de 2004, cá estão as duas salas (para um total de 120 manducantes) de idêntico conforto, luminosidade e amesendação correta.
 
O cozinheiro, Adriano Rodrigues, entrou para a casa há 32 anos. A lista de comidas reparte-se numericamente por 3 Entradas, 3 Sopas, 7 Peixes (cozidos e grelhados), 6 Mariscos, 13 Especialidades (sobretudo arrozes, açordas e cataplanas de peixe e marisco) e 12 Carnes (cabrito e bifalhadas e correlativos). O melhor da coisa estará nos pratos do dia fixo, que vão variando de segunda-feira a sábado (onde é possível encontrar, para além dos provados, “bacalhau à lagareiro”, “frango na púcara”, “arroz de pato”, “lombo de porco com arroz de feijão”, “favas à portuguesa”, “arroz de polvo”, “cozido à portuguesa”, “pato assado” e outros).
 
A “entrada beirã” (€ 4) compôs-se, se não me falha a memória, dos três enchidos tradicionais (chouriço, morcela e farinheira) mais bacon (que é tão beirão quanto eu sou louro de olho azul), de qualidade mediana. A “entrada do mar” (€ 8) consistiu numa travessa com amêijoas (de estirpe intermédia, molho com desajustados vinho branco e louro) e quatro gambas grandes (com casca), acrescidas duma taça com rodelas de polvo (no vinagrete do costume).
 
O “bacalhau à Vila Nova” (€ 10), de receita praticamente igual ao “à Zé do Pipo”, revelou excelente matéria-prima, execução primorosa e ainda por cima abundância. A “feijoada à transmontana” (€ 5,50/€ 8,50), provida das suas carnes porcinas, orelheira, a trindade de enchidos, couve e o feijãozinho em consistência amável, deixou impressão apreciável. Guisado apetitoso o do “coelho à caçadora” (€ 6/€ 9), com seu pão torrado, batata e brócolos cozidos. Embora cético quanto a ser mesmo galo castrado (cuja carne é mais macia e mais gorda), o certo é que o “capão com arroz pardo” (€ 9) foi uma magnífica cabidela de galináceo, o arroz na textura certa, equilíbrio entre o sangue e o vinagre. Com parcimónia de temperos, o “cabrito assado à Nacional” (€ 14) mostrou-se fartamente positivo, pena o arroz branco não ser de miúdos.
 
Os doces ultrapassam a dúzia e os quatro provados foram aprovados. Carta de vinhos sem datas, a preços acessíveis (sem topos de gama), robusta: 74 tintos, 29 brancos, 10 verdes e 10 espumantes.
 

Serviço cabal e afável.

Instalações cuidadas, propostas variadas, cozinha nossa, franca e farta, preçário moderado, o Nacional tem tudo para agradar.
 


 
 

Conteúdos publicados in Diário de Coimbra, 23 de Janeiro de 2007.

 

RESTAURANTE ADEPTO DA COZINHA TRADICIONAL PORTUGUESA HÁ 30 ANOS, DIÁRIO DE COIMBRA

 
A segunda-feira é dia de bacalhau à lagareiro e de carne porco à portuguesa. A terça cheira a feijoada e a bacalhau à brás e, a quarta, a arroz de pato confeccionado à moda antiga e a bacalhau com natas. Seguidamente, à quinta-feira, o trono é ocupado pelo trio arroz à valenciana, arroz de polvo e favas à portuguesa. A sexta não é sexta se não houver pato assado à ribatejana e cozido à portuguesa. Por fim, ao sábado, é difícil resistir ao bacalhau à italiana e à carne de porco à alentejana. Esta é a ementa que, quem frequenta o restaurante Nacional, na Rua Mário pais, em Coimbra, tem na ponta da língua. A casa assinalou no início do mês 30 anos de existência.
 
A origem do restaurante remonta aos finais da década de 70 quando Carlos Fernandes, César Fernandes e Adelino Batista compraram o espaço do Nacional Bilharista. Era uma casa de jogos, constituída por três salas, que tinha também um snack-bar. Outrora pertenceu ao “antigo campeão Mário machado”. Nas mãos dos novos sócios, a casa ganhou uma nova valência: um restaurante. No final do primeiro ano, o trio resolveu por termo aos jogos, passando a funcionar somente como restaurante e snack-bar. Adelino Batista, já falecido, abandonou a sociedade cinco anos após a sua abertura. Há cerca de 15 anos, o Nacional passou a ser somente um restaurante. A exclusividade, garantem os gerentes, visou a comodidade dos clientes. “Quisemos separar o trigo do joio e tornar o ambiente da casa mais agradável. Só entra num restaurante quem quer almoçar ou jantar. Num snack-bar, entra toda a gente”. Outrora esta casa foi palco de muitas tertúlias. Por essa razão, “já faz parte da história de Coimbra”, explicou Carlos Fernandes.
 
Um dos trunfos do Nacional é a ementa. Ao fim de três décadas, pouco mudou. Continua a ser rainha a cozinha tradicional portuguesa. Para além dos pratos já referidos, na lista encontram-se também a paelha de marisco, lampreia, caldeirada de enguias, chanfana, e, entre outros, cabrito. “Uma vez experimentámos alterar a ementa” mas nem todos os clientes acharam “piada” à mudança. “Pediram-nos para manter a ementa” e a gerência satisfez a solicitação. São os pratos da casa, considere Carlos Fernandes, que explicam o sucesso do restaurante. Se a ementa é intocável, o mesmo não se pode dizer da decoração. “De cinco em cinco anos”, é alvo de obras de remodelação.
 
As mudanças têm em conta as melhorias das condições de higiene e visam dar uma nova imagem ao espaço. Neste momento, no Nacional, predomina a madeira. Mas, em anos anteriores, os azulejos e a pedra antiga também caracterizaram o interior deste edifício já centenário. Ao olhar para trás, a gerência faz um “balanço positivo” dos 30 anos de actividade. Tal como em qualquer estabelecimento, tiveram os seus “altos e baixos” e até chegaram a “comer o pão que o diabo amassou”. “Felizmente” só foram assaltados uma vez. “Ainda estamos para saber se foi uma brincadeira ou um assalto”. A ocorrência teve lugar numa véspera de Natal. Os assaltantes apenas levaram os perus recheados que se encontravam na cozinha e duas garrafas de whisky. “Nem sequer tocaram na caixa”.
 
O Nacional está aberto de segunda a sábado. É composto por suas salas, destinadas às refeições do dia-a-dia, e uma outra para eventos especiais. Por dia, ao almoço e ao jantar, mais de 150 pessoas passam pelo restaurante.

 

COZINHA DE QUALIDADE A PREÇOS ACESSÍVEIS

Diariamente, um dos primeiros clientes a chegar ao Nacional é António marques. Frequenta o restaurante desde os primórdios. O ex-director-coordenador de uma companhia de seguros mais de quatro décadas considera que no Nacional existe “uma cozinha de qualidade, a preços acessíveis às bolsas médias”. A lampreia e o arroz de pato são os seus pratos preferidos. Quanto ao atendimento, “no meu caso é quase familiar. Conheço os empregados muito bem e trato-os com fraternidade porque assisti à sua evolução aqui na casa”. António Marques é um dos clientes que recomenda o Nacional a outras pessoas. “Aqui a limpeza é uma certeza e os preços são absolutamente comportáveis a partir da classe média-baixa”, conclui.

 

REFEIÇÕES COM ARTE

O Nacional foi um dos primeiros restaurantes a abrir as portas à arte. A iniciativa pioneira denominada “A arte serve-se à mesa” vai já na 78.ª edição. Nos ultimos 8 anos, pelo Nacional já passaram 77 exposições de 64 artistas.